A LABRE, O RADIOAMADORISMO E OS SEUS PROBLEMAS

 O que nos preocupa, é a situação de uma maioria considerável de permissionários, que não pertence aos quadros da LABRE. É, por assim dizer, um grupo que vive completamente à margem, muito embora desfrutando de determinados benefícios que a citada Entidade reserva para os seus associados, inclusive das suas repetidoras de VHF e o ônus que ela assume, com relação à contribuição, em favor da IARU, representada por dois centavos de dólar, por cada radioamador, filiado ou não da referida Instituição, coisa que, particularmente, somos contra, por entendermos que tal anuidade devia ser paga pelos não associados da LABRE, diretamente ao citado órgão internacional. A propósito do assunto, certa feita, tivemos a oportunidade de “corujar” um QSO, estabelecido entre o nosso colega Nestor - PR7MV e um companheiro, se não nos enganamos, de Ruy Barbosa-BA. Ao término desse contato, este último reportou que “ía mandar o seu QSL via Correios, porque não era associado da LABRE”.

Na volta do câmbio o Nestor disse-lhe para não enviar a “cartolina”, visto que não aceitava um radioamador sem ser filiado à LABRE. No íntimo, aplaudimos a reação do colega da Paraíba porque, de qualquer modo, a LABRE é a única entidade representativa do radioamador brasileiro, reconhecida pelo Ministério das Comunicações. É ela, ainda, que, como filiada à IARU e, juntamente, com centenas de associações congêneres internacionais, se faz presente nas reuniões da WARC (Conferência Radioadministrativa Mundial), promovida pela UIT, esta ligada à ONU. São nesses conclaves em que se discutem os problemas das comunicações internacionais, inclusive, os ligados ao radioamadorismo, isso no que dizem respeito à distribuição das freqüências, medidas essas tomadas, quase sempre, em meio de acirradas discussões, exatamente por conta das pressões exercidas pelos grandes países, que lutam por mais espaços para os seus mais diversos serviços. Numa dessas reuniões, que se realizou em Genebra, na tentativa de “abiscoitarem” algumas faixas reservadas aos radioamadores, foi alegada a “ociosidade” dos segmentos de 6, 10 e grande parte dos 80 metros.

 Por isso, entendemos que, se não houver uma aglutinação em torno das entidades que regem o radioamadorismo, indiscutivelmente, dentro de mais algum tempo, as freqüências a nós destinadas vão ficar por demais limitadas e, não se duvide, de que passaremos a atuar como “clandestinos”, a exemplo do que aconteceu antes da regulamentação desse serviço. É preciso convir que são muitas as vozes que proclamam “um excesso de faixas para poucos radioamadores”. Fazemos esse presságio, ao compararmos o que era a LABRE e o radioamadorismo, num tempo não muito remoto, e o que hoje representam. Evidentemente, esse fenômeno, como dissemos em linhas atrás, é reflexo do extraordinário desenvolvimento que se operou no seio das telecomunicações, sobretudo com o surgimento da Internet e da telefonia celular, considerados como grandes feitos nesse campo. Enquanto isso, o radioamadorismo vai caminhando devagar, devido, principalmente, à carência de equipamentos e, como resultado, o seu alto custo. Existiam em nosso País algumas indústrias eletrônicas, que incluiam na sua linha de produção tais equipamentos, como a DELTA, a BRAZAN, a EUDGERT, a CENTAURO e a INTRACO. Havia algumas outras mais que cuidavam da linha destinada à operação em VHF. De todas, só restou a primeira, a mais tradicional que, alegando “falta de demanda”, pôs de lado a fabricação desses aparelhos em série, passando a faze-los somente sob encomendas, mesmo assim com os seus preços muito acima da capacidade aquisitiva da maioria dos permissionários. O que tem salvo o radioamadorismo brasileiro, são os equipamentos antigos, que ainda estão a resistir à ação do tempo e aos ferros de solda, uns poucos importados, adquiridos pelos colegas mais abonados e, por fim, o “milagre” da criatividade dos radioamadores, que transformam os transceptores COBRA-SL 2000, próprios para a Faixa do Cidadão (27 MlHz) e que, com a modificação introduzida, passam a operar nos 7 com grande sucesso. São os conhecidos TRANSVERT que vêm, em parte, suprindo essa escassês. Em 1976, quando da reunião do Conselho Federal da LABRE, como representante da DS da Paraíba, apresentamos à mesa dos trabalhos, uma proposição “solicitando que, ouvido o Plenário, fosse encaminhado, ao Exmo. Sr. Ministro da Fazenda e ao Egrégio Conselho de Política Aduaneira, um pedido visando à dispensa das elevadas taxas, incidentes sobre a importação de válvulas, transistores, filtros, cristais e componentes, destinados à montagem de equipamentos em SSB”.

 Dias depois, coincidentemente, numa incursão nos 20 metros escutamos quando o colega Morato - Ex-PY2GO, de Goiânia-Go, em rádio com um outro de Juiz de Fora-MG, tecia comentários sobre a referida reunião do Conselho Federal e censurava a nossa propositura, com relação à importação de equipamentos, “como contrária à natureza do radioamadorismo”. Entramos na freqüência em que eles estavam e, depois de cumprimenta-los, informamos que éramos o autor do documento e que nele não constava coisa alguma sobre a “importação de equipamentos” e, sim de “componentes para a sua montagem”. O colega se desculpou e confessou que desconhecia o teor da propositura e que se escudava numa informação de um outro companheiro. Enviamos para ele cópias do documento da ATA da sessão, de 23 de setembro de 1976, que tratou do assunto. Em 1978, numa outra reunião do citado órgão, solicitamos da mesa diretora dos trabalhos, informações sobre o destino do nosso pedido e a notícia dada era de que o mesmo tinha sido indeferido pelo Ministério da Fazenda. Soubemos depois que a DELTA atuou no caso, dando conta da impropriedade da medida, visto que o nosso País os fabricava, o que não era verdade, visto que dependíamos de quase tudo, com exceção de alguns tipos de filtros. Talvez, agora, com a criação da RENER a questão volte à baila, porque, como é sabido, não é possível se formar uma Rede Nacional de Emergência de Radioamadores, sem se contar com o apoio, não dizemos de todos, mas da parte maior do contigente de radioamadores, visto que, segundo se calcula, 70% dos permissionários se encontram em permanente QRT, por falta de equipamentos, problema esse que já vem de longe, isso porque nunca se conseguiu uma fórmula capaz de soluciona-lo.

Preocupados com essa situação, em 28 de abril de 1987, dirigimos uma correspondência à Administração Nacional da LABRE, na época em que o nosso colega Remy Flores Toscano - PT2VE era o seu Presidente, sugerindo que se fizesse uma pesquisa, junto às nossas indústrias eletrônicas, no sentido de verificar quais as que se interessavam em incluir na sua linha de produção kit’s destinados à montagem de equipamentos, sejam em SSB, AM ou CW. Era uma maneira de se dinamizar o radioamadorismo, induzindo os seus participantes à prática da técnica eletrônica e oferecendo a oportunidade deles próprios construírem os seus aparelhos, dentro dessas duas últimas modalidades de transmissão, sobretudo pela facilidade de se adquirir o material necessário, quase todo já fabricado em nosso País. Como muitos se lembram, esses eram os únicos sistemas de transmissão utilizados pelos radioamadores há pouco mais de 40 anos, período em que esse serviço mais cresceu pois, com o uso do AM , se favoreceu a formação da “Rede de Corujas” que, paralelamente, com os radioamadores, prestava também inestimáveis serviços à população. Acontecia que em todas as cidades existiam pessoas que viviam permanentementes “grudadas” aos receptores de rádio comerciais, escutando os QSO’s dos radioamadores. Muitas, quase sempre, ingressavam na RBR e se transformavam em excelentes operadoras.

 Nessa época, houve fatos marcantes. Dos muitos, que contaram com a participação desses “corujas”, vamos fazer referência somente a dois: - o primeiro, se deu com o colega Justino ex-PR7JJ. Como ele fazia habitualmente, antes de sair para o “batente”, ligava o rádio e dava uma “varrida” nas faixas. Num desses dias, ao sintonizar os 20 metros, escutou um companheiro de Brasília-DF chamando a cidade de João Pessoa. Tratava-se de um QTC de doença grave, sendo a enferma genitora de um jovem que se encontrava em Cuité-PB, integrando uma equipe do Projeto Rondon. O Justino deu o QSL e se deslocou para os 40 metros. Jogou a mensagem no éter, chamando a atenção do “coruja” João Moreno, alí residente. Eram 07:00 horas. Às 11:30 horas, o Justino, quando se preparava para ir almoçar, chega um mensageiro dos Correios, com um telegrama de Cuité, que dizia: - “Missão cumprida - João Moreno”. Esse cidadão se tornou radioamador, com o prefixo PR7CKN, e prestou inestimáveis serviços, não só à comunidade cuiteense, como às demais das cidades vizinhas. O Justino e o João Moreno já se encontram no “Oriente Eterno” e, naturalmente, estão a escutar os nossos QSO’s, sem poderem, entretanto, emitir o clássico QAP/ QRV. O outro caso, se deu com o companheiro Santos - PR7NK. Certa feita, ele chamava, insistentemente, por colegas do Recife, na esperança de que algum deles tivesse condição de adquirir uma determinada medicação, anti-hemorrágica, não existente nas farmácias de João Pessoa e destinada à uma senhora que se encontrava internada no Hospital do 1º Grupamento de Engenharia, em estado desesperador. Um desses “corujas”, da capital pernambucana, escutou a solicitação do Santos, anotou o nome do remédio, correu a uma das farmácias, comprou-o e, depois que o entregou a um dos motoristas, de um dos ônibus que fazem a linha Recife-João Pessoa, telefonou para um radioamador daquela cidade, pedindo para avisar ao Santos, que ainda se encontrava na freqüência, que a medicação já estava a caminho de João Pessoa e que o mesmo fosse apanha-la na Rodoviária. Tais histórias, dentre as muitas que aconteceram, vêm nos mostrar a necessidade do retorno do AM quando, certamente, iríamos contar com os serviços dessas abnegadas criaturas, dando, desse modo, vazão ao seu desejo de serem úteis e, ao mesmo tempo, desfrutarem desse gostoso passatempo. Há colegas, porém, que julgam o citado sistema de transmissão superado e que a sua volta iria causar tumulto nas faixas. Acreditamos que isso não ocorreria se fosse estabelecido um acordo no sentido de se utilizar os segmentos de freqüências de 7.200 a 7.300 KHz, muito embora sejam muitos os vazios em todas as faixas, sobretudo nos 40 metros. Aconteceu que, com o advento do SSB, houve uma queda substancia na prática de operação em Amplitude Modulada, coisa que se atribuiu a complexos ou mesmo inibições, muito embora fossem poucos os companheiros possuidores dos equipamentos concebidos dentro das modernas técnicas.

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